Barra de São Francisco amanheceu mais silenciosa no dia 23 de maio de 2026. Aos 98 anos, faleceu o professor Adão Simões da Silva, um dos homens mais importantes da história do município, cuja trajetória se confunde com o próprio desenvolvimento da cidade. Educador, comerciante, diretor escolar, líder comunitário, incentivador da cultura, do esporte e da saúde pública, seu Adão dedicou praticamente toda a sua vida à construção social e histórica de Barra de São Francisco.
Nascido em 30 de dezembro de 1927, na localidade de Taquaral, município de Afonso Cláudio, Adão Simões era filho de José Francisco Simões e Maria Madalena da Silva. Ainda criança, viveu com a família em Córrego Manbruque, no município de Baixo Guandu, onde iniciou seus estudos em uma pequena escola particular instalada na propriedade do pai.
Naquela época, o ensino era rígido e marcado pelas dificuldades do interior. Seu primeiro professor, o português João Siqueira, utilizava a tradicional palmatória como método de alfabetização, realidade comum nas escolas rurais do Brasil nas décadas de 1930 e 1940. Mesmo diante das dificuldades, Adão demonstrava desde cedo inteligência, disciplina e grande vontade de aprender.
A infância também foi marcada pelas inseguranças vividas no interior capixaba naquele período. Segundo relatos de sua própria história, a região sofria constantemente com ataques de ladrões que roubavam animais e invadiam propriedades rurais. Após ter sua propriedade assaltada, seu pai decidiu mudar-se para Baixo Guandu em busca de mais segurança e oportunidades de trabalho.
Em março de 1942, aos 14 anos, Adão Simões chegou definitivamente a Barra de São Francisco, cidade que adotaria como lar e ajudaria a construir ao longo das décadas. A família foi morar na antiga Rua do Bambé, atual Rua Eliseu Divino. Inicialmente trabalhou no pequeno comércio do pai e, posteriormente, na lavoura às margens do Rio São Francisco. Também exerceu funções como barbeiro e balconista no comércio local.
Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945, chegou a ser convocado para servir ao Exército Brasileiro, mas acabou dispensado com o encerramento do conflito. Pouco tempo depois, passou a atuar na tradicional Casa Simões, estabelecimento comercial da família localizado na Avenida Jones dos Santos Neves, que se tornou referência no comércio francisquense.

No dia 5 de setembro de 1949, casou-se com Irene Ribeiro da Silva, iniciando uma união que duraria 63 anos, até o falecimento de dona Irene em 2012. Dessa união nasceu a família Simões Fonseca, composta pelos filhos Carlos, Carly, Carlile, Clébio, Cláudio, Adão Filho, Irene e Alexandre. Além de pai dedicado, seu Adão foi exemplo de honestidade, trabalho e amor familiar, transmitindo aos filhos valores que permaneceram presentes nas futuras gerações.
Mesmo já sendo pai de quatro filhos e comerciante estabelecido, Adão Simões tomou uma decisão que mudaria sua história: voltou a estudar aos 27 anos. Em 1955 ingressou na primeira turma do Ginásio Independência, pioneira instituição de ensino de Barra de São Francisco. Seu desempenho chamou atenção pela excelência. Sempre ocupando os primeiros lugares da turma, concluiu o ensino ginasial e posteriormente formou-se em Técnico em Contabilidade.
Seu talento logo o levou às salas de aula. Em 1962 foi convidado para lecionar no próprio Ginásio Independência, onde ensinou História Geral, História do Brasil e disciplinas ligadas à Contabilidade. Mais tarde, com a transformação da escola no Ginásio Estadual João XXIII, regularizou sua formação através do curso da CADES, vinculado ao Ministério da Educação, e conquistou licenciatura oficial para atuar no magistério.
Em abril de 1971 assumiu a direção da Escola João XXIII, cargo que ocupou durante 12 anos. Sob sua liderança, a escola viveu importantes avanços educacionais e estruturais. Conhecido pela disciplina, capacidade administrativa e dedicação ao ensino, tornou-se uma das figuras mais respeitadas da educação regional.
Seu amigo Manoel Lobado, autor da letra do hino municipal, costumava dizer que o nome dele deveria ser “Adões”, no plural, tamanha era sua capacidade de trabalhar, organizar e liderar diversas atividades ao mesmo tempo.
E realmente foram inúmeras as contribuições de Adão Simões para Barra de São Francisco.
Além da educação, atuou como contador, representante bancário, representante do INPS e do FUNRURAL, auxiliando trabalhadores rurais, idosos, gestantes e famílias carentes em períodos em que o acesso aos serviços públicos era extremamente limitado.
Foi também fundador do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde ajudou a implantar atendimento médico, odontológico, laboratório de análises clínicas e distribuição de medicamentos gratuitos à população rural. Ao lado dos filhos Cláudio e Carly, dedicou-se ao atendimento social de forma voluntária e humanitária.
Na cultura e no esporte, sua atuação também foi marcante. Em 1951 fundou a Banda de Música Lira São Francisco, onde aprendeu a tocar saxofone. Criou ainda o Grêmio Lítero Esportivo Ginásio Independência (GLEGI), uma das mais importantes agremiações esportivas da cidade nas décadas de 1950 e 1960. Também foi fundador do tradicional time Galo Velho, inicialmente chamado “Os Formidáveis”.
Participou ativamente do Lions Clube, da Cruz Vermelha e da Loja Maçônica 14 de Julho, ocupando diversos cargos e fortalecendo ações sociais no município.
O reconhecimento veio através de inúmeras homenagens. Recebeu o título de cidadão francisquense em 1980, foi eleito Professor do Ano em 1989, tornou-se cidadão espírito-santense em 1992 e recebeu importantes condecorações, como a Comenda Domingos Martins, concedida pela Assembleia Legislativa do Espírito Santo.
Apaixonado pela história local, Adão Simões também se dedicou à preservação cultural de Barra de São Francisco. Em 2001 participou da recuperação da antiga partitura do hino municipal “Marcha Triunfal”, ajudando a preservar um dos maiores símbolos históricos da cidade.
Sua vida se mistura à própria formação de Barra de São Francisco. Enquanto os pioneiros abriram estradas e construíram casas, seu Adão ajudou a construir conhecimento, cidadania e identidade cultural. Ele ensinou gerações inteiras a valorizarem suas raízes e compreenderem a importância da memória histórica.
Adão Simões foi mais do que um professor. Foi uma referência moral, intelectual e humana. Um homem simples, mas gigante em sua contribuição ao município.
Sua trajetória pode ser comparada a uma árvore centenária fincada no coração de Barra de São Francisco. As raízes representam sua ligação profunda com a história e as origens do município; o tronco simboliza sua firmeza, sabedoria e dedicação à educação; e os frutos são as milhares de pessoas que aprenderam com seus ensinamentos e carregam até hoje sua influência.
Com sua partida, Barra de São Francisco perde uma de suas maiores referências históricas. Mas o legado de Adão Simões permanece vivo nas escolas, nas instituições, na cultura, na memória popular e no coração de cada francisquense que teve o privilégio de conhecer sua história.










































































