
SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – Um grupo de representantes das famílias das 62 vítimas do acidente aéreo fatal do voo 2283 da Voepass, em 9 de agosto de 2024, tiveram acesso, pela primeira vez, à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave antes do acidente.
Áudio revela últimos momentos das conversas na cabine da aeronave. “O avião deu todos os sinais possíveis e eles [piloto e copiloto] não fizeram nada. Eles sabiam que estavam viajando no perigo”, disse ao UOL Fátima Albuquerque, presidente da associação dos familiares e mãe da médica Arianne Albuquerque, que estava no voo.
Investigação tenta descobrir se os pilotos acionaram o sistema de degelo da aeronave. Uma possível falha no sistema é uma das linhas investigadas desde o início. Os familiares contam que as conversas da cabine eram aguardadas com certa ansiedade porque poderiam ajudar a esclarecer os momentos finais do voo. Os familiares optaram por ler apenas a transcrição das conversas, sem ouvir as gravações.
Familiares das vítimas tiveram uma reunião em Campinas (SP) com os investigadores, na terça-feira (30). “Eles [os pilotos] pagaram com a vida. Na transcrição, pudemos ver que eles diziam ‘gelo’, ‘gelo’, mas não tentaram fazer nada”, explicou Fátima. Ela conta que os dois profissionais sabiam que a aeronave estava com problemas antes de decolar.
“Agora, a gente quer que os outros que estão vivos paguem na Justiça. Tudo era feito de forma errada naquela empresa. O avião não tinha condições de viajar para nenhum lugar que tivesse frio, com gelo. É tudo um horror, qualquer ser humano que estivesse em perigo tentaria fazer alguma coisa, mas os pilotos tiveram uma perda de consciência de perigo inacreditável”, disse Fátima Albuquerque, presidente da associação dos familiares.
Além da transcrição das conversas, as famílias também tiveram acesso ao laudo pericial da Polícia Federal. O advogado Luciano Katarinhuk afirmou que o documento embasa a fase final do inquérito conduzido pela PF.
Segundo ele, a expectativa é de que a PF conclua a investigação nos próximos 30 dias. Após o prazo, o relatório será encaminhado ao Ministério Público Federal.
O advogado explicou que o relatório, que tem mais de 200 páginas, reúne elementos que podem resultar em indiciamentos, ou seja, responsabilização criminal. “Ainda faltam alguns procedimentos a serem concluídos. Mas o que sabemos é que haverá indiciamentos no caso da Voepass, os familiares vão ter uma resposta para que isso nunca mais aconteça”. Os nomes de possíveis indiciados não foram divulgados.
Em 9 de agosto de 2024, o caiu em Vinhedo (SP), matando 62 pessoas. A aeronave havia decolado de Cascavel, no Paraná. Os quatro tripulantes e seus 58 passageiros morreram após o impacto do avião bimotor contra o quintal de uma casa em Vinhedo.
Aeronave despencou 13 mil pés (4.000 metros) em dois minutos. O registro de voo do Flight Radar mostra que o avião estava a 17 mil pés de altitude às 13h20 e a 4.000 pés (1,22 km) às 13h22, quando o sinal de GPS foi perdido pela plataforma. O avião caiu cerca de 20 minutos antes de pousar e atingiu casas de condomínio residencial.
O piloto do avião, Danilo Santos Romano, comentou sobre uma falha no sistema antigelo da aeronave. A informação foi divulgada em relatório preliminar apresentado pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), da FAB (Força Aérea Brasileira), no dia 6 de setembro. A suposta falha ainda será apurada durante a investigação.
Todas as pessoas que estavam a bordo do ATR 72-500 morreram. A maioria das vítimas era de Cascavel, de onde saiu a aeronave.
Reconhecimento dos corpos ocorreu por análise das arcadas dentárias, DNA e coleta de impressões digitais. Todas as pessoas morreram devido ao impacto do avião com o solo. Com isso, mortes foram instantâneas por politraumatismo e, só depois, o avião explodiu. Apesar disso, corpos não foram completamente carbonizados.
FADIGA PODE TER CONTRIBUIDO PARA QUEDA DE AVIÃO DA VOEPASS
Fadiga pode ter contribuído para queda do avião. Um relatório do Ministério do Trabalho e Emprego aponta que fadiga dos pilotos pode ter contribuído para o acidente.
Segundo o relatório, as escalas não tinham tempo suficiente de descanso para a tripulação. A auditoria concluiu ainda que a empresa não realizava controle efetivo da jornada de trabalho dos funcionários, descumpria o tempo de descanso estabelecido na Lei dos Aeronautas e violou as cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho voltadas à prevenção da fadiga.
Essas irregularidades levaram os fiscais a lavrar dez autos de infração, com multas que somam cerca de R$ 730 mil. A Voepass/Passaredo também foi notificada por não recolher mais de R$ 1 milhão do Fundo de Garantia dos trabalhadores. Cabe recurso das infrações.
A Agência Nacional de Aviação Civil cassou a certificação de operação da empresa em junho de 2025. Porém, agência já havia suspendido as operações aéreas da Voepass desde março do mesmo ano. A empresa entrou com pedido de recuperação judicial em abril de 2025.









































































