(FOLHAPRESS) – A ajudante-geral Thawanna da Silva Salmázio, 31, e o ajudante de pedreiro Luciano Gonçalves dos Santos, 36, estavam comemorando a notícia de que poderiam se casar em breve quando uma viatura da Polícia Militar esbarrou no braço dele, dando início à discussão com policiais que terminou com a morte dela em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo.
O casal tinha acabado de decidir ir embora da casa de um amigo, e dormir, quando toda a confusão começou. Era pouco antes das 3h do dia 3 de abril. Em menos de um minuto após a batida, Thawanna estava ferida com um tiro de pistola da PM.
“Bateu de propósito [a viatura no braço]. Foi de propósito, porque eu não sou louco”, disse Luciano à Folha.
Ele conta que o motorista da viatura deu ré e começou a ofendê-lo sem que o casal tivesse provocado a dupla de policiais. Thawanna reagiu quando o soldado Weden Soares, 26, disse “a rua é lugar de ficar, caralho?”, segundo Luciano.
Em resposta, a ajudante-geral disse o seguinte: “Com todo respeito, foram vocês que bateram em nós”. É o que mostra a gravação de uma câmera de segurança da rua e da câmera corporal divulgada pela TV Globo, assim como o relato do ajudante de pedreiro e da advogada da família da vítima, que viu as imagens.
A soldado Yasmin Cursinho Ferreira, 21, desembarcou da viatura e gritou com ela -chamando-a de vagabunda, segundo apontam relatos de moradores e a gravação da câmera de segurança. É possível ouvir Thawanna dizendo “não aponta o dedo para mim, não”.
Luciano, a advogada que assistiu ao vídeo da câmera corporal e dois moradores da rua afirmam que a policial agrediu Thawanna com um chute e um murro logo depois. Do outro lado da viatura, o soldado Weden aplica spray de pimenta no rosto do ajudante de pedreiro. É quando se ouve o barulho do tiro.
A soldado Yasmin justifica que atirou porque a vítima teria lhe dado um tapa na cara. Mesmo que isso não justifique o tiro -o manual que embasa o treinamento da PM orienta usar a arma apenas quando há risco à vida de alguém-, o companheiro de Thawanna rebate a versão com base nas evidências do caso.
“E a boina dela, da polícia, não cai no chão? Ela não coloca a mão no rosto em momento algum”, ele diz. “Se tiver um tapa na cara, lógico que ela vai ficar com a mão no rosto, vai ver se não ficou com vestígio, se tá inchado. Em momento algum ela faz isso. Não teve tapa na cara.”
Depois que Thawanna é ferida, os policiais passam a afastar e a ameaçar atirar tanto Luciano quanto moradores da rua que conheciam o casal e se prontificam a socorrê-la.
Mais de meia hora se passou, a partir do chamado, até que uma ambulância. A unidade do Corpo de Bombeiros mais próxima fica a sete minutos de distância de carro.
Três PMs de uma segunda equipe a atender a ocorrência chegaram a prestar os primeiros socorros à vítima, indica uma imagem à qual a reportagem teve acesso. A demora na chegada da ambulância e a ameaça contra quem tentou socorrer a vítima revoltaram Luciano.
“Eles trataram minha mulher pior do que se trata um cachorro, entendeu? Foi um ato de crueldade”, afirma. “Você não vai deixar um cachorro rastejando, atropelado no meio da rua.”
Procurada, a Polícia Militar afirmou que o atendimento pré-hospitalar e o resgate do Corpo de Bombeiros, inclusive o tempo de resposta do socorro, estão sendo investigados, assim como “todas as circunstâncias do caso”.
A corporação ressaltou que os dois policiais diretamente envolvidos foram afastados das ruas. Além disso, afirmou que o caso é tratado como prioridade e que o conjunto de provas sob análise inclui as câmeras corporais e outras fontes de imagem, os laudos e os depoimentos.
A assessoria da Secretaria Municipal de Saúde afirmou, por telefone, que o Samu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) foi acionado, mas uma ambulância do serviço só chegou quando a equipe do Corpo de Bombeiros já estava no local.
DEMORA NO SOCORRO
Para a Ouvidoria das Polícias, há indícios suficientes para que se abra um procedimento na Corregedoria para apurar a omissão de socorro.
“Se não tem uma lei que proíba expressamente a família de fazer o resgate, a família tem o direito de fazê-lo -sob responsabilidade deles”, disse o ouvidor Mauro Caseri.
Para ele, as evidências de omissão estão não apenas na ameaça contra quem tentou socorrê-la, mas na decisão de não levar a vítima de outra forma até um hospital quando a demora na chegada da ambulância ficou nítida. Ele disse que um oficial da PM que estava no local tinha autonomia para decidir que uma viatura da própria corporação fosse usada no socorro.









































































