É cada vez mais evidente a incoerência de setores expressivos da esquerda brasileira que se arvoram em juízes da política internacional enquanto ignoram ou deliberadamente relativizam o colapso fiscal, institucional e econômico que se desenha dentro das fronteiras nacionais. Trata-se de um discurso ruidoso, ideologicamente enviesado e profundamente desconectado da realidade concreta do Brasil.
O país encerrou o último exercício com resultado fiscal negativo, incapaz de gerar superávit primário sustentável, mesmo após sucessivas alterações nas metas fiscais e flexibilizações do chamado “arcabouço fiscal”. A dívida pública segue em trajetória ascendente, pressionando o endividamento bruto em relação ao PIB, elevando o risco fiscal e comprometendo a capacidade do Estado de investir sem recorrer ao aumento de impostos ou à expansão inflacionária.
O impacto disso é técnico, mensurável e direto:
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Aumento da percepção de risco-país, refletido no custo do crédito e na volatilidade cambial;
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Redução do investimento produtivo, diante da insegurança fiscal e regulatória;
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Pressão inflacionária estrutural, que corrói a renda dos mais pobres e neutraliza políticas assistenciais;
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Dependência crescente de arrecadação, com carga tributária elevada e ineficiente, que penaliza consumo e produção.
Paralelamente, o Brasil enfrenta uma crise institucional latente, marcada por conflitos recorrentes entre os Poderes, judicialização excessiva da política, insegurança jurídica e instabilidade normativa. Esse ambiente mina a previsibilidade, afasta capitais e enfraquece a confiança nas instituições um elemento básico para qualquer democracia funcional.
Apesar desse cenário, parte significativa da esquerda prefere deslocar o foco para o exterior, dedicando tempo e energia à defesa seletiva de regimes autoritários ideologicamente alinhados, como o da Venezuela. Nesse debate, conceitos fundamentais como separação de Poderes, eleições livres, liberdade de imprensa e respeito a direitos civis são relativizados, tratados como “contexto”, “narrativa” ou “exagero da mídia internacional”.
O critério é puramente ideológico:
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Aliados políticos recebem complacência;
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Adversários ideológicos recebem condenação sumária;
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Violações equivalentes são julgadas de forma desigual, conforme o espectro político do governo em questão.
Essa seletividade escancara que o discurso não é sobre democracia, direitos humanos ou justiça social, mas sobre manutenção de uma cartilha ideológica anacrônica, incapaz de dialogar com dados, indicadores e evidências empíricas.
O Brasil não precisa de militância internacional ornamental, nem de análises externas usadas como cortina de fumaça. Precisa de responsabilidade fiscal real, com controle efetivo de gastos, revisão de subsídios ineficientes e respeito a regras orçamentárias. Precisa de instituições fortes e previsíveis, não tensionadas por conveniências políticas. Precisa, sobretudo, de um debate honesto, que enfrente problemas internos com seriedade técnica e coragem política.
Enquanto setores da esquerda brasileira insistirem em olhar para fora para evitar a autocrítica doméstica, o país permanecerá preso a discursos vazios, diagnósticos distorcidos e soluções improvisadas. Democracias maduras exigem coerência, rigor intelectual e compromisso com a realidade não indignação seletiva nem silêncio cúmplice diante do fracasso interno.











































































