No meio da década de 2000, era comum ver times repetindo sistemas táticos, uns copiando os outros e usando o verbo “espelhar”, quase como desculpa. Quando o Corinthians foi campeão brasileiro com Marcelo Mattos como volante, mas terminando a campanha quase de terceiro zagueiro, todo time tinha um cabeça-de-área que encaixava na marcação do segundo atacante e o perseguia.
Este início de Brasileirão mostra muito mais variedade tática e a primeira rodada trouxe muitas surpresas, com vários times grandes ou considerados candidatos ao título sendo derrotados. Seja por julgarem o Palmeiras de Abel Ferreira apenas reativo — ele julga o termo reducionista — seja por se pensar no Internacional de jogo posicional. A primeira rodada mostrou variedade tática, talvez fruto da mistura de culturas. O campeonato tem dois técnicos argentinos, dois portugueses, um espanhol, quinze brasileiros, de estilos e escolas diversas.
Confira a tabela completa do Brasileirão série A
Abaixo, um apanhado do que se pôde perceber na primeira rodada, em catorze exemplos diferentes:
FLAMENGO – O Flamengo estreou com vitória sobre o Palmeiras por 1 x 0. Rogério Ceni joga no 4-4-2, mas faz a saída de bola, muitas vezes, com três homens. Puxa Filipe Luís por trás de Diego, junta-o a Rodrigo Caio e Arão, deixa o camisa 10 como pivô defensivo e estica Isla para dar largura ao campo pela direita. Faz o mesmo com De Arrascaeta pela esquerda, mas há variação e troca com Bruno Henrique, que brilha quando tem o campo a seu favor. Foi o que se viu na estreia contra o Palmeiras.
INTERNACIONAL – O Colorado fechou a primeira rodada com um empate em 2 x 2 contra o Sport. Miguel Angel Ramírez é adepto do jogo de posição, no 4-3-3, o que não significa deixar seus jogadores posicionados fixamente. Em síntese, craque espera e ataca o espaço vazio em seu quadrante. Caio Vidal pela direita, Maurício à esquerda, Taison por dentro, Edenílson na meia. Na saída de bola, Lindoso volta entre os zagueiros para fazer superioridade numérica. Taison e Yuri Alberto tentam abrir espaços entre as linhas, atrás dos volantes.
PALMEIRAS – Abel Ferreira recusa o rótulo de time de contra-ataque. Gosta de dizer que todas as equipes devem buscar o equilíbrio. E busca. Entende que seu time joga num desenho semelhante ao Chelsea de Thomas Tuchel. Sai para o jogo no 3-1-4-2. Ou seja, Felipe Melo à frente dos três zagueiros, Gabriel Menino, Raphael Veiga, Patrick de Paula e Viña atrás de Rony e Luiz Adriano. Isto sempre que tenta construir o jogo. E tem tentado, a ponto de Wéverton ser o segundo jogador com mais passes.
SÃO PAULO – O Tricolor Paulista ficou no empate com o Fluminense na premeira rodada. O desenho do time de Crespo é o 3-4-2-1. Não espere ver isto de maneira imóvel. É tática, não estática. O segredo do ataque está na mobilidade dos meias e o esquema flui mais com Benítez do que com Gabriel Sara e Igor Gomes. Outra diferença está no sistema de marcação. Crespo gosta de perseguições individuais pelo campo inteiro. Não é marcação homem a home, como Giovanni Trapattoni. Parece mais o sistema de encaixe, usado por Marcelo Bielsa, seu mestre.
SANTOS – O Peixe de Fernando Diniz, que usa o 4-3-3 começou com o pé esquerdo no Brasileirão 2021, com derrota por 3 x 0 para o Bahia. Dizni puxa um volante para fazer saída de três, troca passes até abrir o terreno no campo de defesa, mas o risco é ter mais posse de bola na defesa do que no ataque. Outro risco é girar a bola sem infiltração. O Santos de Diniz jogou quatro vezes, ganhou uma, perdeu três, marcou três gols e sofreu oito. Mas é só o início.
ATLÉTICO MINEIRO – O Galo, também considerado um dos fortes candidatos ao título, foi surpreendido pelo Fortaleza, em pleno Mineirão e perdeu por 2 x 1. Cuca volta ao 4-3-3, tem Allan como base do passe preciso e da variação de jogo. Já usou Arana como meia e Réver como volante e sempre mudará o jeito de jogar de acordo com o adversário. Mas a base tática não muda, nem o gosto pelas jogadas ensaiadas de bola parada — até de lateral — e o desejo de não renunciar aos lançamentos longos. Não é chutão. Sua marcação é de encaixe, à moda do que aprendeu no futebol gaúcho dos anos 1980.
GRÊMIO – O time de Tiago Nunes também começou mal o Brasileirão. Foi derrotado pel oCeará por 3x 2. Nunes mudou a marcação homem a homem das bolas paradas e passou a jogar com marcação mista. Nos escanteios, prevalece o estilo zonal, mas dois ou três podem perseguir individualmente. Seu estilo prevê marcação por zona com bola rolando e muita rapidez para recuperar a bola e chegar ao gol em passes curtos e sempre em direção à meta rival.
FORTALEZA – O argentino Juan Pablo Vojvoda, que levou seu time à vitória contra o Galo, montou defesa com três homens, Tinga, Marcelo Benevenuto e Titi, escalou Daniel Guedes como ala direito e Lucas Crispim na esquerda. Na prática é um 3-5-2, mas os alas recuam. Na maior parte das vezes, não se monta linha de cinco defensores, mas de quatro. Ora Daniel Guedes empurra Tinga para a zaga e Titi para a lateral, ora Crispim faz o inverso e Guedes fica na linha de quatro do meio. As transições ofensiva e defensiva precisam ser rápidas para surpreender o adversário. O Atlético já sabe disso.
BAHIA – Linha de quatro atrás, um volante e outra linha de quatro. Em tese, seria um 4-1-4-1, mas Rodriguinho e Gilberto têm liberdade de movimentação. Não diga que o Bahia joga com três volantes. Antes disso, observe como Thaciano se aproxima como elemento surpresa.
ATHLETICO PARANAENSE – Antonio Oliveira é mais um da escola portuguesa, mais parecido com Jesualdo Ferreira, que gosta da marcação por zona e do equilíbrio das linhas. Seu desafio é ter Jádson contribuindo para o sistema de meio-de-campo. Joga com bola no pé, troca de passes. Por vezes, vai esbarrar em muita posse de bola e pouca infiltração. O Athetico começou o brasileirão com vitória por 1 x 0 sobre o América-MG. Foi a sexta vitória consecutiva pelo mesmo placar.
CEARÁ – Guto Ferreira mantém seu 4-2-3-1 e recusa o rótulo de reativo. Quando dirigiu a base do São Paulo, com Fábio Aurélio, Edu, Émerson Sheik e Fábio Simplício, fez times criativos. No Ceará, sabe que precisa marcar e sair em velocidade: “Hoje, o futebol é transição.” Dois de seus três gols contra o Grêmio foram de contra-ataque.
BRAGANTINO – O Massa Bruta terminou a rodada na liderança do Brasileirão após vitória por 3 x 0 sobre a Chapecoaense. Maurício Barbieri monta sua equipe no 4-4-2, é posicional, mas dentro da escola brasileira, que permite um pouco mais de busca pela bola. Artur à direita, Helinho à esquerda, Claudinho buscando espaço às costas dos volantes. Na defesa, linha de quatro homens e marcação por zona.
SPORT – Umberto Louzer também monta 4-4-2, também marcação por zona, mas é muito mais defensivo do que Barbieri. Pudera: não tem talento à disposição. Por isso, precisa jogar em velocidade. (Da Redação com blog do PVC/ge)










































































