
Relatório publicado em 2023 pelo “defensor del pueblo”, um cargo inspirado na função de ombudsman, da Suécia, que foi instituído na Espanha na Constituição de 1978, estimou que mais de 230 mil crianças e adolescentes podem ter sofrido agressões por parte de religiosos católicos desde 1940.
No final de março, o governo do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, e a Igreja espanhola assinaram um acordo para indenizar as vítimas de crimes sexuais, após anos de reticências e falta de transparência por parte da hierarquia eclesiástica.
O rei Felipe 6º, que deu as boas-vindas a Leão 14 no Palácio Real, ao lado da rainha Letizia e do premiê Pedro Sánchez, cumprimentou o religioso pela forma como lida com o assunto. “Vossa clareza e firmeza, que também quero reconhecer, são essenciais no processo de cura e reparação do dano causado: são [fundamentais] para as vítimas, para os fiéis, para a Igreja e para a sociedade em geral”, disse.
Trata-se da primeira visita do pontífice à União Europeia além da Itália. A Espanha foi visitada por um líder da Igreja Católica pela última vez em 2011, pelo papa Bento 16.
Após a cerimônia no Palácio Real, o papa fará uma vigília de oração próxima do estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid, onde espera reunir 400 mil pessoas. No domingo (7), celebrará uma missa na praça de Cibeles, na qual espera reunir 1 milhão de fiéis.
“Eles percebem que há um vazio, e talvez minha visita tenha ajudado a despertar algo que nem eles mesmos sabem bem como definir”, disse Leão 14 durante a viagem sobre o interesse dos jovens pelo catolicismo.
“Se forem questionados se querem ver Bad Bunny ou o papa, acho que muitos irão ver Bad Bunny, mas também acho que haverá alguns que venham ver o papa, e isso diz algo.” A visita do pontífice coincide com as datas dos shows realizados pelo cantor porto-riquenho no país.
Na segunda-feira (8), Leão 14 se tornará o primeiro pontífice a discursar no Parlamento espanhol. Na terça (9), em Barcelona, deve inaugurar uma nova torre na basílica da Sagrada Família. Já no arquipélago das Ilhas Canárias, na quarta (10), o religioso se encontrará com migrantes que enfrentaram o oceano Atlântico para chegar à Europa e organizações dedicadas a ajudá-los.
Sánchez acompanhará o papa em uma cerimônia de homenagem aos migrantes que morreram na travessia para tentar chegar ao território -em 2025, foram mais de 3.000 pessoas, segundo a ONG Caminando Fronteras. Ao contrário de países vizinhos, o governo do premiê impulsionou um plano de regularização de migrantes que deverá normalizar a situação de cerca de 500 mil pessoas.
Em seu primeiro discurso em Madri, no Palácio Real, Leão 14 elogiou a Espanha pela oposição à guerra no Irã e aos ataques de Israel na Faixa de Gaza. “Expresso minha gratidão ao seu país por sua fidelidade ao direito internacional e ao multilateralismo, que se traduz em um compromisso constante em favor da paz e da solidariedade entre os povos”, disse.
O pontífice também recomendou que os líderes mundiais se afastem de discursos polarizadores. “Convido a todos, por amor à verdade, a abandonar os discursos que dividem e polarizam a realidade social e a história de vocês, a fim de passar das simplificações estéreis para uma apreciação fecunda da complexidade. Vejo nisso uma vocação específica da Europa, da qual a Espanha é um ator fundador e essencial.”
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