
EVELYN AIRES E ARTHUR GUIMARÃES DE OLIVEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A repercussão digital sobre as divisões internas do bolsonarismo ganhou força no WhatsApp e no Telegram após a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro postar dois vídeos em suas redes sociais com críticas ao pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
Levantamento feito pela empresa de monitoramento Palver, que acompanha mais de 100 mil grupos públicos nesses aplicativos, aponta vantagem de Michelle nessa disputa narrativa. Do total de mensagens opinativas, 67% dos usuários se manifestaram de forma desfavorável à conduta de Flávio e 33% tomaram uma posição favorável ao senador.
O volume de menções contrárias a Flávio, segundo a empresa, foi impulsionado também por setores da esquerda, que se juntaram à onda de críticas para desgastar a imagem do filho de Jair Bolsonaro.
A Palver acompanha desde 18 de junho as mensagens no WhatsApp e no Telegram sobre os bastidores de uma possível aliança do PL com Ciro Gomes (PSDB) para concorrer ao Governo do Ceará.
A discussão, extremamente tímida de 18 a 23 de junho, ganhou força após os vídeos postados por Michelle na tarde de quarta-feira (24).
Na gravação, ela relatou que Flávio a desrespeitou por telefone após ela criticar, em comício feito em novembro de 2025, a articulação de aliança com Ciro Gomes.
No início da manhã desta quinta-feira (25), havia um pico de 219 menções ao caso a cada 100 mil mensagens coletadas.
Michelle, que defende apoio ao senador Eduardo Girão (Novo-CE) no estado, afirmou que Flávio a criticou nas redes antes de falar com ela e, quando retornou ao contato, foi ríspido, dizendo que ela deveria ficar de fora das decisões partidárias e que não entendia de política.
O universo de mensagens opinativas na crise se dividiu em três correntes principais mapeadas pela análise da Palver.
A narrativa mais carregada politicamente, segundo a empresa, fala em uma suposta traição ideológica atribuída a Flávio por setores da base, que o acusam de ignorar a memória do pai em nome de conveniência eleitoral. A aliança com Ciro Gomes é vista como inaceitável por essa militância, que relembra insultos históricos do ex-governador à família. Nesse cenário, Michelle é vista como a guardiã dos valores do movimento.
Há um grupo de usuários focados no pedido de desculpas de Flávio a Michelle depois da repercussão do caso. Para eles, esse gesto foi calculado, sob pressão do bombardeio de mensagens, e não representa arrependimento genuíno.
Outra força de discussão defende a postura do senador, com a avaliação de que o acordo no Ceará é uma estratégia eleitoral legítima e necessária para derrotar o PT na região. Esses perfis criticam a interferência da ex-primeira-dama em decisões da diretoria do partido e avaliam que a exposição pública do caso foi um erro que acabou entregando munição para a oposição.
INVERSÃO DE PAUTA
A publicação dos vídeos de Michelle inverteu a pauta discutida nas redes logo após o anúncio de afastamento do senador Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado, após o parlamentar virar alvo da Operação Compliance Zero.
De acordo com um relatório especial do Instituto Democracia em Xeque, a discussão familiar ocupou o lugar da repercussão da crise do governo Lula (PT) entre a tarde do dia 24 e a manhã do dia 25 de junho.
O episódio fez com que o “Vídeo de Michelle” concentrasse 76% das menções diretas (91,6 mil resultados), enquanto o caso de Jaques Wagner reteve apenas 24% do debate (29,3 mil resultados).
Em termos de engajamento, os conteúdos sobre a denúncia de Michelle acumularam cerca de 1,4 milhão de reações, um volume quase sete vezes maior do que as 214 mil interações registradas pelas publicações sobre o caso do líder governista.
Diante do cenário, os perfis de esquerda direcionaram sua maior concentração de posts (38%) para engajar no vídeo de Michelle, optando por capitalizar politicamente com a discórdia do clã Bolsonaro em vez de priorizarem a blindagem do próprio aliado alvo da investigação.
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